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Correio Elegante - O Bairro Vermelho

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Eu te amo, Angeli
Esse dia o mestre ficou puto comigo.
Esse dia o mestre ficou puto comigo.
Angeli encerrou sua carreira por causa de uma doença neurodegenerativa. A notícia saiu nesta quarta-feira, segue aqui o link da matéria. Isso me impactou um montão, já que fomos bastante próximos entre 1993 e 1999, até eu mudar para o Rio de Janeiro. Na correria, escrevi este textinho em homenagem a ele. Tive que me conter senão dava para preencher um livro inteiro:
 
Obrigado, Angeli. Obrigado pela amizade de todos esses anos. Obrigado pelos cafés no Fran’s, pelas baladinhas leves na Vila Madalena, Matrix, Superbacana, The Jungle, Empanadas. Obrigado pelos almoços no Urca, no Pé pra Fora e no Frevinho, as idas à Indie Records, às livrarias, os shows que vimos juntos, do Bob Dylan e do Rolling Stones. Lembro que a gente assistia a MTV e fazia comentários como se fôssemos Beavis and Butt-Head. Bons tempos. Obrigado pela companhia nas viagens, as visitas surpresas de madrugada, os conselhos, as conversas jogadas fora e tudo o mais. Obrigado por tudo, Angeli. Te amo, cara.
Nós sempre teremos Paris
Capa e contracapa do livro
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O Bairro Vermelho
Encravado no coração da cidade, fica o Bairro Vermelho, o mais importante ponto turístico da capital holandesa. Amsterdam sem o Bairro Vermelho é como um jantar sem vinho ou um travesti sem pinto.
 
A atmosfera do lugar é para lá de estimulante. São mais de 300 cabines distribuídas pelas ruelas do centro histórico, alugadas por trabalhadoras da profissão mais antiga do mundo. O negócio sempre foi levado a sério. Elas são autônomas, pagam imposto de renda, têm seguro saúde e direito a dois meses de férias.
 
E é exatamente aí que está o nosso herói, acabou de dar os primeiros passos no pedaço e esbanja otimismo, já que ele aposta no seu charme de latin lover, certo de que as prostitutas do pedaço vão ficar caidinhas e cobrar menos por seus serviços.
 
Nada mal, raparigas. Quero 50% off e garanto dar 100% in. Hehehe, curtiram a piada? Pois é, além de dublê de ator pornô, sou humorista também. Vocês vão se encantar com a minha pessoa. Mas não se apaixonem porque odeio a prisão dos relacionamentos. I’m a free spirit, you know. Não se desesperem, sem tumulto. Peguem a senha e façam fila. Vai ter fuzarca para todas.
 
À medida que entra no distrito luxurioso, o jovem cartunista vai ficando cada vez mais animado. Sua cabeça se eleva, o peito infla e os pés se movem velozmente. Seu corpo está em festa, todinho ele, encharcado de testosterona feito um peru boiando no molho.
 
O lugar é um deleite para os olhos. As mulheres, vestindo trajes econômicos, se exibem nas vitrines, uma ao lado da outra, iluminadas por uma luz vermelha suave.
 
O cardápio é variado e tem para todos os gostos. Do comum ao exótico. Loira, morena, negra, asiática, magra, gorda, alta e baixinha. Basta escolher. Além do mais, é um lugar democrático. Todos os fetiches estão contemplados, não importa a sua tara.
Nosso herói caminha por um beco e se delicia ao ver a noiva recatada de véu e grinalda, a ninfeta perversa com uniforme de escola, a selvagem devoradora de homens e a anã de circo barbada se balançando em um trapézio. Mais adiante tem uma loira musculosa trajando roupas sadomasoquistas acompanhada de um pastor alemão. Adaô fica na dúvida se o cachorro está ali só para fazer companhia à moça ou faz parte do pacote e entra na esbórnia.
 
Na esquina uma ruiva linda com a expressão séria chama a sua atenção. O aspirante a beatnik se assanha todo e resolve arriscar. É agora ou nunca, pensa ele. Um, dois, três e já! Enquanto faz sinal para a beldade, sente a excitação aumentar a ponto de não haver mais espaço para o embutido maroto na samba-canção. A mulher atende a porta com um olhar mal humorado e diz, de forma ríspida:
 
— One hundred dollars for thirty minutes.
 
Ao ouvir o preço do cachê, nosso herói brocha. Cem dólares é a metade do seu orçamento para a viagem. Ele pensa em pedir um desconto e argumentar que tem ejaculação precoce. Faz a regra de três… trinta minutos, cem dólares, então, três minutos sairia dez. Mas ele prefere não dizer nada porque a mina parece não ter nenhum senso de humor. Percebendo que ele é um pé de chinelo, ela bate a porta na sua cara.
 
Mas o jovem cartunista não deixa a peteca cair. Ergue a cabeça e continua seu rolê pela zona. Já que está difícil transar, pelo menos pode tirar umas fotografias. Sim, quando se trata de mulheres e sexo, nosso herói não economiza nos filmes, por isso levou a câmera com ele. Depois é só revelar e apreciar os retratos na intimidade do seu quarto. Muito mais barato que uma fornicadinha.
 
Se achando o J.R. Duran numa sessão de fotos para a capa da Playboy, Adaô tira a Olympus da mochila e aponta para a deusa de ébano que posa em uma das vitrines de pernas cruzadas. O encontro dos dois pilares de carne dobram as circunferências das suas coxas e essa imagem o excita de tal forma que suas mãos tremem dificultando o ajuste do foco. Mesmo assim ele consegue alguns cliques.
 
Nesse momento, ele pensa em mandar algumas daquelas fotos para o seu pai, sem dúvida ia sentir orgulho do filhinho. Pai, sabe onde estou agora? Em Amsterdam, no Bairro Vermelho, a zona deles. Aqui as raparigas se exibem nas vitrines só de sutiã e calcinha. Parece mentira, mas as fotos provam que não estou delirando. Como agora sou um cartunista famoso em Paris e ganhei muito dinheiro, vou passar o rodo. No mínimo provar umas cinco e virar história na cidade. Amsterdam, enfim, vai conhecer a pulsão sexual dos Iturrusgarai.
 
Enquanto delira, Adaô acena para a deusa africana imaginando que ela vai ficar envaidecida quando perceber que está sendo fotografada. Só que acontece exatamente o contrário disso. Ao se dar conta, a mulher tem um acesso de fúria, abre a porta e despeja uma enxurrada de palavrões em cima do ex garanhão dos trópicos.
 
Assustado, Adaô recua como um caranguejo até sentir um puxão forte no braço arrancar a sua Olympus. Um grandalhão roubou a sua máquina e caminha apressado em direção à ponte. Nosso herói corre atrás dele pedindo sua câmera de volta. Era só o que faltava. Vai ao Bairro Vermelho e, além de voltar virgem, perde a câmera.
 
Continua.
Homem-Legenda
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O molho madeira era tão vagabundo que tava mais para molho “compensado”.
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Adão Iturrusgarai

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