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Correio Elegante - Ismael e Queequeg

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Ismael e Queequeg
Mil desculpas pelas unhas sujas.
Mil desculpas pelas unhas sujas.
Begonia se foi e nosso herói vai ter que passar a noite sozinho. Não, é muito pior do que isso. Vai ter que dividir a habitação com um homem que ele nunca viu mais gordo. Neste caso, nunca viu mais alto, porque o sujeito tem a altura de uma escada Magirus.
Resignado, ele volta ao quarto com a moral cabisbaixa e flácida balançando entre as pernas. Depois de fechar a porta com cuidado para não acordar o roommate, Adaô tira a roupa e se enfia na cama.
O quarto cheira mal. Provavelmente o novo hóspede não é chegado numa ducha. O odor forte invade a narina do Adaô e não está com a menor vontade de sumir. Como aquela visita pentelha que nunca vai embora. A atmosfera do dormitório agora lembra a cozinha de um restaurante popular em dia de mocotó salpicado de coentro.
Discretamente, tapando o nariz com o cachecol, o jovem cartunista observa o novo habitante do aposento. A cama é tão pequena para ele que os pés saem para fora do colchão. Cabelos raspados, brinco de pirata e bronzeado vermelho carmim típico de um náufrago que passou meses em uma canoa à deriva no mar. As botas do cara são tão grandes que poderiam servir de lar para uma família de anões.
A criatura é excêntrica e dorme com um cachimbo na boca. A cada roncada, Adaô reza para que ele engula o troço e morra engasgado. Só assim nosso herói dormiria tranquilo.
Como se não bastasse o cheiro de chulé e outros aromas humanos desagradáveis, tem o problema da poluição sonora. O ronco do indivíduo deve ultrapassar com folga o limite permitido por lei. É tão alto que parece que estão furando o assoalho com uma britadeira. Deve existir uma lei do silêncio em Amsterdã, um Psiu dos Países Baixos, mas ele não pensa em mover nem um dedo com medo de acordar o gigante.
No ombro do mastodonte repousa uma tatuagem de marinheiro desbotada. Por um instante o desenhista dos trópicos pensa que está tendo um déjà vu, até que ele lembra que aquela situação é igualzinha ao começo do livro Moby Dick, onde o marujo Ismael divide o quarto de uma estalagem com o selvagem Queequeg que traz na bagagem um pau onde estão penduradas várias cabeças humanas. O personagem Ismael está apavorado com a possibilidade de ser morto e só se acalma depois de elaborar o seguinte raciocínio: “Antes dormir com um canibal sóbrio do que com um cristão bêbado”.
Deitado na cama ao lado do forasteiro, o brazuca cagão continua imóvel. Fixo como um daqueles mímicos de rua imitando estátua.
Porém, ao ser envolvido pelas sombras da noite, as funções de alerta do seu sistema nervoso são ativadas. É o instinto de sobrevivência se sobrepondo ao seu lado racional. Um sentimento tão primitivo que nosso herói não tem mais controle sobre o seu cérebro. Sua mente agora é dominada por maus pensamentos e o interior da sua cabeça se transforma em uma sala de cinema onde passa um filme de terror. “Os Últimos Momentos do Cartunista” é uma película tão apavorante que chega a arrepiar os pelos do dedão dos pés. Adaô, o protagonista, está dormindo em uma barraca de camping quando um psicopata o amarra. Em seguida, ele é jogado em uma caminhonete e levado até as profundezas de uma selva habitada por um trio de canibais: Enfadonho, Insosso e Sensaborão.
Os três entoam um canto desanimado e dançam uma coreografia xarope em volta de um caldeirão cheio de água fervente. Os nativos acreditam que devorando o jovem cartunista vão alimentar as suas almas com a graça do humorista. É a crença daquele povo e não adianta discutir ou argumentar.
O filme acaba quando o psicopata tira da sua mochila uma adaga comprida usada para alcançar o coração dos porcos.
 
Continua.
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Adão Iturrusgarai

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