Correio Elegante

Por Adão Iturrusgarai

Correio Elegante - Coitus interruptus

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Esta foto foi tirada em 2017 no Museu dos Quadrinhos de Bruxelas e ela tem uma historinha. Logo na entrada, Willem De Graeve, o simpático diretor da casa me disse:
— Vou te pedir um favor. Todo quadrinista que vem aqui tira uma foto ao lado do foguete do Tintim. Você se incomoda que a gente faça uma com você também?
Respondi que não tinha nenhum problema, parei ao lado do foguete e me abaixei.
— Sabe que ninguém teve essa ideia antes?
Fiquei me achando aquele dia.
Paris por um triz
Adoro quando os amigos elogiam. Ainda mais um ídolo do Casseta.
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Coitus interruptus
Não tem só sem-vergonhice no Museu do Sexo. Lá o assunto é levado a sério. O acervo do lugar inclui fotos históricas, estátuas milenares, gravuras artísticas e máquinas sexuais que poderiam ter sido inventadas por um Leonardo da Vinci no cio.
Mesmo com a cabeça abarrotada de más intenções, como um inferninho no dia do 13º salário, nosso herói mantém a linha e faz pose de connoisseur de arte. Com o nariz empinado e expressão austera, parece um estudante de arqueologia da Sorbonne visitando o departamento egípcio do Louvre.
Infelizmente ele não consegue manter o personagem por muito tempo, afinal todos os seus bilhões de neurônios estão ocupados em arquitetar um plano para se apossar do coração da Begonia. Não precisa ser necessariamente o coração. Serve também outro órgão ou membro menos nobre como peitos, coxas e bunda. Até uma mão amiga está valendo, afinal Adaô continua no zero a zero na sua viagem a Amsterdam.
A seriedade da dupla só é quebrada quando se deparam com dois esqueletos fazendo 69. A escultura lembra os “amantes de Pompéia”, o casal de pombinhos petrificado pela erupção do Vesúvio. O jovem cartunista pergunta à fofa se essa não é a melhor maneira de morrer e ela concorda em gênero, número e grau, e ilustra isso esbanjando sensualidade, mordendo o lábio inferior e revirando os olhos. Nisso estão de acordo e ele fica ainda mais saidinho.
Depois de visitar as salas Mata Hari e Oscar Wilde, eles entram na Marquês de Sade. Fazendo jus ao nome do escritor, que inspirou o termo sadismo, o ambiente sombrio imita uma masmorra de tortura, com as paredes mofadas e teto baixo. Um alto-falante reproduz guinchos de dor e barulho de engrenagens de metal. A atmosfera é desagradável e Adaô sente calafrios. No centro da sala, exibido dentro de uma redoma, como se fosse um troféu, está um cintaralho tamanho GG, provavelmente moldado sobre a genital de um burro, capaz de dar inveja à ferramenta do ator pornô Long Dong Silver, que era capaz de fazer todo o repertório de nós de marinheiro dobrando a mangueira.
Mais acesa que refletor de estádio, a bascatalã aponta para o brinquedinho e se vira para o nosso herói com cara de safada.
— Agora sim, você descobriu o meu segredo. Eu gosto de coisas bem selvagens.
Adaô sua frio e fica paralisado. Seu orifício traseiro se contrai e fecha mais do que a rosquinha da boneca Barbie. Tenso como está, nunca mais vai poder ir ao banheiro fazer o número dois. Nem depois de comer todo o mamão do café da manhã do hotel.
Ao notar o assombro do jovem cartunista, Begonia se desmancha em risos.
— Caramba, como você é impressionável. Eu estava brincando. Em matéria de sexo sou bem feijão com arroz.
Nosso herói suspira de alívio e finalmente sua auréola posterior se descontrai. Depois de tanta tensão, ele até consegue esboçar um sorriso.
Os dois estão com as mãos bem próximas apoiadas na vitrine, movendo os dedos como se acariciassem o vidro. Os dedos dela ousam e roçam sutilmente os dele. Normalmente esse tipo de carinho é coisa de criança mas, assim, dissimulado, chega a ser mais excitante que um amasso. Agora é a vez da mão masculina partir para o ataque. Sua mão agarra a mão sedosa da espanhola como uma aranha caranguejeira aprisiona um inseto suculento. A operação é um sucesso porque ela aceita a manobra sem resistência. Não só aprova como entra na brincadeira e joga a outra mão em cima, apertando forte.
Eles se encaram nos olhos, enquanto ela entreabre os lábios deixando à mostra dois incisivos perfeitos, levemente separados, como duas pastilhas branquíssimas de Mentex. Em seguida, seus rostos vão se aproximando em câmera lenta. Quando falta um milímetro para que suas bocas se toquem, o segurança entra na sala e, com uma voz grave, anuncia o fechamento do museu.
Coitus interruptus. Os dois se afastam um do outro, constrangidos, rindo de nervoso.
Adaô fica puto e tem vontade de socar o segurança. Ele perdeu mais uma chance. Agora vai ter que começar tudo de novo, como se aquilo fosse um jogo de tabuleiro e ele tivesse caído na fatídica casa “volte ao início”.
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Sinto o vento das mudanças. Não, é só o bafo do continuísmo.
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Adão Iturrusgarai

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