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Correio Elegante - A Barcelonesa

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A barcelonesa
— Wow, are you a cartoonist? I love comics.
— Where do you come from? — pergunta Adaô, notando o sotaque dela.
— I’m a catalan from Barcelona.
— Ah, entonces podemos hablar en español. Soy brasileño.
— Que bueno. Me cansé de hablar en inglés.
— Um dia quero conhecer Barcelona. Meu gibi preferido é de lá.
— El Víbora? — completou a garota.
— Conhece a El Víbora?
— Óbvio, sou fã de quadrinhos. Posso olhar a tira que você enviou por fax?
— Claro.
Adaô entrega o desenho e nota que ela espreme os olhos tentando decifrar o português.
— Não entendi. Traduz para mim?
Ele titubea antes de revelar o conteúdo dos balões do cartum do peido. Está hipnotizado com a beldade e convenhamos que “flatulência” não é um tema singelo para quebrar o gelo em um primeiro encontro. Além do mais, esse lance de gases não é nada erótico, a não ser para alguns fetichistas degenerados. Mas a catalã ordenou e ele vai ter que traduzir, não tem jeito, seja o que deus quiser:
— “Te tiraste un pedo? No, erupté. Es que soy ventrílocuo”.
Nosso herói só relaxa depois que a fofinha solta uma gargalhada vistosa e elogia o cartum.
Enquanto ela devolve o desenho, os dois ficam se encarando, olho no olho, por alguns segundos. Nesse brevíssimo momento, que parece durar uma eternidade, nenhuma palavra é dita. Parece que um gato passou e comeu a língua dos dois. Adaô tem vontade de convidar a catalã para tomar algo mas as palavras se recusam a sair. Elas estão confortáveis ali no quentinho da sua garganta e não querem pegar o frio de outono dos Países Baixos. Uma pena, porque nessas horas qualquer papo furado funciona: geopolítica, a origem do universo, astrologia… Encabulada, a barcelonesa balança a mão dando “adiós” e vai embora.
O jovem cartunista fica sem ação, imóvel, como se tivesse sido enfeitiçado por uma bruxa, observando a garota sumir entre as bicicletas. Enraivecida, a voz da consciência encosta no ouvido do nosso herói e começa a dizer de tudo: “palerma, otário, tontinho. Como você deixou passar essa? A mina estava na sua. O que aconteceu? Timidez ou receio de levar um fora e passar vergonha? Ninguém conhece você nesta cidade. Vai atrás dela, bobalhão. É agora ou nunca".
Incentivado pelo coach interno, Adaô acorda do torpor e sai correndo em busca da gata.
Ao chegar na esquina ele a perde de vista. Quer gritar seu nome e lembra que nem sabe como ela se chama. Quando desiste da perseguição, sente uma presença nas costas e ouve uma voz feminina.
— Hey, cartoonist.
Nosso herói se vira e dá de cara com a garota.
— Topa tomar uma cerveja? Tem um pub bem legal aqui perto — se adianta ela.
A vida é um longa-metragem de orçamento medíocre escrito por um roteirista regular e dirigido por um sádico. Nossa existência é um filme arrastado, na maior parte do tempo recheado com conflitos, clichês e muitas tragédias. Raros são os momentos de alegria, os instantes sublimes. Tão raro quanto encontrar um pedaço de carne de frango no risoto da vovó pão-dura.
Adaô agora estava vivendo justamente um desses momentos. Era hora de aproveitar a parte boa do filme, em Amsterdam, no auge da juventude e bem acompanhado.
Enquanto caminham, conversam e trocam alguns olhares. A distância entre seus corpos parece diminuir a cada metro, como se houvesse um campo gravitacional forte entre eles. Igual ao aparelho de fax que leu há pouco o seu cartum, Adaô, munido de sua vista de lince, escaneia meticulosamente a catalã gótica. Ela veste botas de couro e meia calça pretas. A barra da saia está a cinco centímetros do joelho, o limite permitido para as ginasiais. A jaqueta um pouco aberta revela um decote generoso deixando a mostra parte dos seios. Nosso herói se distrai com o busto da moça e quase explica para ela o significado da expressão “fazer uma espanhola” no Brasil. Mas Adaô não é trouxa a ponto de botar tudo a perder com uma piada de quinta série. Então ele guarda a gracinha para depois do terceiro chope. E por falar em chope, eles acabam chegando ao bar que ela indicou. Depois de sentar no balcão pedem duas Guinness. Em seguida, brindam, se olhando nos olhos, e dão o primeiro gole. Esse ritual é importantíssimo. Na Europa dizem que se você não brindar se olhando nos olhos e não beber em seguida, vai ter sete anos de sexo ruim.
— Sabe quem ia gostar desse teu cartum? O Berenguer.
— O José María Berenguer? Você conhece o editor da El Víbora?
— Quantas vezes vou ter que repetir que sou fã de quadrinhos? Qual é o seu nome?
— Adão.
— Adáo, qué lindo. Mucho placer, Begonia.
Continua.
O amigo Paulo Lima escreveu umas coisas legais sobre meu livro:
UMA AVENTURA PARISIENSE
Ernest Hemingway ligou em definitivo Paris à ideia de uma festa - uma festa ambulante. Uma vez criado o mito, restou aos que sucederam àquela geração perdida persegui-lo.
O cartunista Adão Iturrusgarai viveu sua “moveable feast”. Aos 25 anos, o gaúcho hoje radicado na Argentina seguiu o rumo da Cidade Luz. Era o ano de 1990. Adão tinha um sonho: ganhar a vida com o seu traço, a exemplo dos seus ídolos dos quadrinhos na França, como Sempé e Wolinski.
É essa experiência de juventude que ele nos conta em seu livro PARIS POR UM TRIZ - AVENTURAS DE UM CARTUNISTA, recém-lançado pela Zarabatana Books.
Em capítulos curtos, Adão narra tudo, tim-tim por tim-tim, como se nos apresentasse a uma forma gráfica de sua jornada. São histórias deliciosas, que a gente lê como se testemunhasse cada passo do jovem desbravador.
O humor dá a tônica do livro, atravessando todos os episódios nos quais Adão trata a si mesmo com zero autocomplacência - até pelo contrário. A autoderrisão está presente em cada uma de suas tentativas frustradas de se firmar em Paris e realizar seu sonho.
Torcemos por ele, nos decepcionamos juntos com ele, que para os franceses passou a se chamar Adaô. Era “moi et moi-même”, como ele costumava se definir. Era ele e ele, sozinho em seu voo impetuoso de doce pássaro da juventude.
A gula e a gana com que se lança sobre Paris na chegada está assim resumida: “Paris agora era minha. E eu a queria inteirinha, todinha para mim. Comer. Devorar. Os restinhos de carne, as gordurinhas, os tendões, os nervos. Morder os ossos e chupar todo o tutano até não sobrar nada”.
Adaô consegue algum sucesso aqui e ali, namora belas francesas (oh là là), faz amigos, até consegue emplacar alguns de seus desenhos em algumas publicações underground, porém sem remuneração. Entre baforadas generosas de Gitanes, ele consome e é consumido por Paris, em sua temporada constituída de felicidades e tristezas. C'est la vie.
Paulo Lima.
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Strip Me + Adão.
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O homem é o único animal que tropeça duas vezes na mesma ideia.
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Adão Iturrusgarai

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